Por Nice Almeida
Hoje acordei me sentindo pesada, sobrecarregada. Demorei levantar, não consegui ir trabalhar. Meu corpo dói. A essa hora, já me pergunto se as dores são resultado da gripe forte ou da mente que não relaxa, constrangida pela inutilidade diante de tanto ódio contra as mulheres.
Sim, eu vou falar sobre o caso Isabelle Caracristi. Uma garota de 22 anos, cheia de sonhos, como tantas de nós, independente seja nossa idade. Ontem, segunda-feira (21 de setembro), assisti na íntegra o relato da mãe dela, Isorlanda Caracristi. A cabeça rodou!
Três imagens se formaram pelo meu cérebro. Os nomes delas são: Gyovanna, Rute e Maria Alice, minhas sobrinhas, filhas de minh’alma. Tentei conter o pânico. Sou ainda cheia de gatilhos. Sensações inexplicáveis assombram minha mente e se refletem no meu corpo.
Embora eu já consiga falar sobre violência contra mulher, não significa ter sido eu curada das marcas que ela tatuou em minha alma. Inevitável se torna a consternação a me rondar.
Isabelle era uma garota cheia de histórias a serem vividas. Agora, uma triste e cruel estatística. As setas da violência nos indicam quatro mulheres mortas por dia em decorrência de feminicídio no Brasil. Dados oficiais consolidados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública através do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, em 2025.
Para piorar, a dor enrijece meus músculos a cada pessoa que questiona Isabelle, a morta, quando o questionado deveria ser o então namorado João Munhoz Neto, de 33 anos.
Acordei com a cabeça cheia de perguntas. Coincidência, ou não, logo uma amiga me envia áudios. Ela se perguntava as mesmas coisas que eu.
“Como nós mulheres nos deixamos enganar tanto? Como nos permitimos ser violentadas, agredidas, massacradas?”. No nosso caso, mulheres inteligentes, empoderadas, graduadas, pós-graduadas. Como ainda nos permitimos viver isso?
Ela é, infelizmente, apenas uma das muitas amigas que, assim como eu, conheceram a violência de perto. A violência que deixa marcas no físico e no psicológico, essa última talvez muito pior, porque como as pessoas não veem, duvidam de nós quando relatamos o caso.
Encerrada a conversa com ela, a mente continuou acelerada. Em meio às reflexões, a luz acendeu, a ficha caiu.
Somos tão “adestradas” a nos culpar pela agressão que sofremos que até as perguntas a nos fazer ainda estão equivocadas.
O certo mesmo é questionar: Por que esses homens têm tanto ódio da gente? Por que parte da sociedade (grande parte) ainda minimiza a violência verbal, psicológica, se tudo começa aí, nesse exato ponto? Por que quando uma mulher é morta parte da imprensa só expõe ela e as decisões dela, quando deveria expor, sem pudor nenhum, ele, o culpado, o agressor, o assassino?
O fato é que quatro mulheres por dia em nosso país têm seu corpo colocado em uma sepultura física só porque elas se atreveram a nascer mulher. Incontáveis são, no entanto, as que vivem sufocadas em sepulturas construídas em suas almas e que nós fingimos não ver.
Há mulheres mortas andando nas ruas o tempo todo, frequentando o trabalho, as igrejas, as festas, olhando ao seu redor e desejando ser enxergadas, mas não são. Isso não minimiza os números das fisicamente mortas. Isso aponta para uma gama de outras já petrificadas emocionalmente, potenciais vítimas da matança urbana dos papeis invertidos da sociedade falso moralista.















