Por Nice Almeida
Nunca fui muito dada aos números. Sendo assim, não paro a observar quantidades exatas, prefiro olhar histórias. Ali, a contabilidade também não importa, e sim os rostos individuais a falar por meio das expressões. Assim, passeio com meu olhar tentando desbravar as diversas terras povoadas apresentadas naquele cenário onde a natureza divide espaço com o concreto, num misto de verdades expostas e segredos jamais revelados.
Nas janelas da alma de cada um [os olhos], busco desvendar os sentimentos. Em alguns vejo a esperança. N’outros, a desolação. Mais a frente, percebo o medo. Tem, ainda, o brilho da fé. Num sorriso tímido, a certeza da coragem. Logo ao lado, a tristeza se faz presente. Naquele cabisbaixo, o cansaço. No corpo franzino, a vontade de viver, pois conhece o significado da imortalidade.
Reflito se um dia serei eu em meio àquela multidão. Quem sabe? Não é um prognóstico negativo, apenas a constatação de uma possível realidade. Afinal, em que seria eu melhor que qualquer um ali presente? Nada!
Para quem, ao contrário de mim, prefere os cálculos, se apresentam no chamado das fichas apenas as estatísticas. É apenas mais um, ou mais uma, a requisitar o atendimento dos especialistas dedicados a buscar a cura para o corpo. No fim do dia, em casa, imagino que a frase mais clássica deva ser: “Hoje atendi 50 pessoas”. Sei lá! A depender do setor, a álgebra é incerta.
Para mim, uma vida. Para alguém, o amor da vida inteira. Para os profissionais de saúde, espero eu com otimismo, sejam eles e elas seres humanos, e não apenas doenças. Oro para que assim os enxergando, todos compreendam que se não conseguirem mais cuidar da enfermidade, permaneçam zelando dos enfermos.
Não restam dúvidas ao meu discernimento diminutivo. O setor de oncologia de um hospital é, de longe, o lugar que mais me provoca mudança de vida. E sendo bem sincera, me revela o quanto ainda estou longe de colocar esse entendimento na prática. Falo aqui de uma mutação espiritual e física.
Lembro-me de um dos preceitos d’O Evangelho Segundo o Espiritismo “Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela”. Está no capítulo 17, item 11, sobre ‘Cuidar do corpo e do espírito’. Ah, que livro mais atual!!! Eu o recomendo muito [e de novo]. Uma dose por dia, ao menos. É santo remédio.
Pondero! Tenho sido relapsa nos muitos aspectos cuidadosamente atribuídos a este ensinamento amoroso. Será que os que ali estão também o foram?
Cada um com sua história, cada qual levando a sua bagagem, e todos transitando na vida sem, na maioria das vezes, requerer aos céus a faísca iluminativa da vida para além dos embaraços da vaidade que um dia fatalmente terá de ser substituída pelo mais importante: a própria vida.















