Por Nice Almeida
Ela caminhava normalmente quando de repente, em um dia qualquer, seu corpo colapsou. Andar já não lhe era mais suportável e a nova condição trazia em uníssono a dor emocional da não compreensão de uma realidade inesperada. O que será que lhe acontecia? Questionava-se incansavelmente.
Médicos, exames… dor, muita dor. Tarefas simples, como ir ao banheiro sozinha, já não lhe eram comuns. A necessidade de ajuda o tempo todo para condicionar seus passos também lhe apertavam o coração. Era orgulhosa demais para encarar aquela situação de dependência.
A falta de um diagnóstico fortalecia o desespero que a impedia de pensar e enxergar soluções. Admitir o grito da alma machucada, impulsionada pela raiva e tantos outros sentimentos sombrios não era cogitado, pois alimentava a ilusão de ser boa demais para aceitar um íntimo carregado de demônios.
Necessário se fez olhar para dentro de si. A irradiação da dor no corpo físico nada mais era que a hemorragia na alma ferida. O tratamento e a cura, portanto, dependiam muito mais de uma reação emocional que da medicina convencional. O remédio era buscar a reforma íntima, mas sem martírio, sem escravização pela culpa e com a coragem de reconhecer as próprias fragilidades humanas encapadas por sombras.
Entrou em cena, então, além da terapia holística muito eficaz e tratamento espiritual, uma leitura edificante: Reforma íntima sem martírio, de Wanderley de Oliveira, pelo Espírito da maravilhosa Ermance Dufaux. Na leitura, uma explicação plausível sobre a circunstância que lhe abatera.
“Para muitos corações sinceros que efetivamente anelam por aprimoramento e mudança, detectar uma atitude falsa e uma ação que corresponda aos novos ideais costuma desenvolver um estado psicológico de insatisfação consigo mesmo, que pode ativar a culpa e a cobrança impiedosa. Instala-se assim um cruel sistema mental de inaceitação de si mesmo, que ruma para a mais habitual das camuflagens da hipocrisia: a negação, a fuga”.
Como olhar nos olhos dessa verdade sobre ela mesma? Foi preciso descortinar as janelas da intimidade, admitir as trevas existentes em si e convidá-las a tornarem-se luz. Missão um tanto quanto difícil, porém não impossível. Assim, o fez! Iniciou a trajetória em uma estrada ainda esburacada. Sabia que o caminho deveria ser pavimentado pelas próprias mãos, com paciência e sem pressa.
Aprendeu com Ermance que: “Adquirir essa consciência de que a evolução não se faz aos saltos, e sim etapa a etapa, é um valoroso passo na libertação desse “vício de santificação”, essa necessidade neurótica que incutimos ao longo de eras sem fim, especialmente nas letras religiosas, com o qual queremos passar por aquilo que ainda não somos. Disso resulta o conflito, a dor, a cobrança, o perfeccionismo e todo um complexo de atitude de autodesamor”.
E, em outro parágrafo, muita compreensão sobre: “Reforma íntima, como a própria expressão comunica, quer dizer a mudança que fazemos por dentro. E jamais, em caso algum, ela se dará repentinamente, num salto. A santificação é um processo lento e gradativo. Cuidemos com atenção das velhas ilusões que nos fazem acreditar na “angelitude por osmose”, ou seja, de que a simples presença ou participação nos ofícios doutrinários é garantia de aperfeiçoamento”.
Conhecimento, terapia e, obviamente, os cuidados físicos. Depois que a dor da alma precisou fazer o corpo gritar para conseguir ser ouvida e enxergada, era imprescindível tratar essa área também. Um triângulo entre o corpo, a mente e o espírito se fez compreender e a consciência do autoamor, autocuidado e autorespeito foi despertada.
Se ela já se curou? Não totalmente! A cura é algo muito além da compreensão humana. Mas, está no caminho. Um passo de cada vez. Amando-se e respeitando-se, e também ao próximo. Começou por si mesmo e expandiu para o todo. Afinal, aprendeu que amar o próximo sucede uma máxima: amar a si mesmo.















