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Farmácia moral

Por Nice Almeida

As dores que ruminam da alma são explicáveis pela natureza psicológica de traumas adormecidos, mas ainda incuráveis. Me vi doente, novamente, em busca de remédio para o íntimo.

Fitei a estante de livros a se revelar uma imensa prateleira farmacêutica constituída por remédios apropriados para o processo curativo. A visão isolou determinada imagem destacando um ansiolítico cumulativo de esperanças.

Leitura conhecida, porém esquecida em meio a poeira. Era ela a me chamar: Francisca Clotilde, a diva literária, parceira do médium Cezar Braga Said, me convidava a embarcar novamente nessa viagem para perceber as cores do jardim a se abrir diante de meus olhos.

Desistir não é a opção apresentada pelo livro Mulheres Segundo o Espiritismo. O coração palpita em coragem para empunhar a espada do conhecimento e travar a revolução interna em todos os que conseguir alcançar.

O entendimento é de que somos criaturas individuais constituídas de um coletivo necessário. Relações interpessoais que, no entanto, não envolvem a obrigação do desmerecimento, desrespeito e na repugnante crença da formação de seres supostamente superiores arquétipos de figuras masculinas notadamente recobertas de machismo e misoginia.

A obra nos convida a enxergar as responsabilidades a nós concedidas, sendo a maior delas o autoamor, autocuidado, autorespeito e a conservação de nosso corpo, lar temporário do Espírito.

Perspectivas de um altruísmo que sobrepassa o externo e acolhe o interno em moradia única revestida por luz, e que nada tem a ver com egoísmo e, sim, com a preservação da figura divinal sob a qual nos hospedamos.

Nas primeiras páginas, meu olhar revoltoso distorceu as letras e fez parecer uma leitura romantizada impondo cargas ainda mais pesadas sobre nossos ombros femininos. A cada dose da medicação literata, contudo, o grau foi se ajustando e colocando nas linhas a correta interpretação dos ensinos.

Somos livres. Uma liberdade que nos guia para longe, bem longe da certeza aceita como verdade absoluta de que devemos suportar a violência, seja qual tipo for, ao contrário das evidências irreais dos estilos religiosos que colocam a aceitação indevida a agressões.

“Analisa teus limites e responsabilidades e não compactues com qualquer violência à integridade física, moral e emocional tua e de teus filhos”, aconselha a educadora, escritora, jornalista e abolicionista Madrinha Chiquinha.

Lá na frente, o Espírito amigo que se fez mulher na última encarnação acrescenta: “Sempre que a agressão chegar, ora, suplica o auxílio celeste. Recorre a quem possa te ouvir e ajudar, mas recorda que existe uma legislação que te protege, te confere direitos, e usando de bom senso e coragem podes utilizá-la a teu favor”.

O livro Mulheres Segundo o Espiritismo é encerrado de forma realista e inflexível à qualquer tipo de violência contra a mulher. A obra traz, na íntegra, a Lei Maria da Penha revelando seu papel social cujo apontamento consta nas obras fundamentais da Doutrina Espírita organizada e embasada por Allan Kardec.

Desaparecem, em definitivo, as letras embaçadas e surge a esperança de ver essa filosofia tratar abertamente e de forma contundente sobre tema tão escasso na literatura espírita. Visibilizamos a ciência que sustenta a doutrina sem seus comportamentos igrejizados a desvirtuar o imenso propósito do progresso.

Iniciamos a rotina pela construção de um sistema visionário para trazer essa discussão para dentro das casas espíritas, locais onde, não se enganem, existe uma vasta camada de mulheres sofridas e silenciadas pelas violências. Vamos falar, gritar se for preciso, a urgente necessidade de usar esses espaços para acolher, esclarecer e proteger.

Porque, assim como na campanha encabeçada pela Arquidiocese da Paraíba, em parceria com o Tribunal de Justiça da Paraíba, “Mesmo que ninguém veja”, há mulheres sendo violentadas o tempo todo e nós precisamos enxergá-las.

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