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Quem me tocou

Por Nice Almeida

Ela quase se arrastava pelas ruas estreitas. Para além da dor paralisante, havia em seu rosto os traços de medo e, ao mesmo tempo, a luz da fé. Precisava se tornar invisível, caso contrário seria escorraçada, quem sabe até apedrejada. O coração batia acelerado, as mãos estavam frias revelando ansiedade.

Os evangelistas Matheus, Marcos e Lucas narram pouco sobre esse encontro, apenas o que alcançaram seus olhos, ou lhes contaram.

Não se sabe por quantos dias aquela mulher caminhou sangrando, sentindo dor e se escondendo dos que a tornavam mais uma figura feminina excluída da sociedade seguidora de leis violentas que tinham como alvo preferido as mulheres.

Ele andava rápido. Seguia em direção a mais um prodígio. A companhia de Jairo, chefe da sinagoga, não era a única. De repente, uma multidão já envolvia a figura luminosa, mansa e humilde de Jesus. Todos queriam ser curados de suas enfermidades físicas e sabiam ser o Mestre aquele que poderia ofertar tamanha doação.

Estava um alvoroço e os apóstolos tentavam conter as mãos que imploravam atenção.

Tento descrever o instante do toque. As palavras não chegam. É impossível traduzir em palavras o exato momento em que Jesus sente sair Dele o poder.

A frase se faz estrondosa, embora doce.

“Quem me tocou?”.

Todos reagiram com espanto. Eram muitos, dezenas, centenas a tocá-lo na caminhada. Ele insistiu: “Alguém me tocou, porque senti sair de mim poder”.

Jesus não analisava um acontecimento apenas por partes. Ele conhecia o todo de cada história a se fazer presente em sua vivência na Terra. Nesta ocasião, o Mestre sabia o gigantismo do significado do verbo ‘tocar’ para o registro do seu encontro com a mulher do fluxo de sangue que perpassaria milênios.

Em meio a incontável multidão a tocá-lo pedindo milagres, aquela mulher era a única proibida pela lei de tocá-lo. Em sua infinita pureza, Ele reforça a pergunta por compreender ser aquele toque, um momento não apenas de grandeza, mas também de questionamentos por parte de seus opositores.

A mulher foi ao encontro do Mestre pensando em tocar apenas seu Manto e, assim, seria curada. Uma demonstração de fé que transporta montanhas e também de grande coragem. Por ser considerada impura, havia 12 anos a mulher hemorrágica tinha sido deserdada pela família, isolada da sociedade, vivia à margem.

Era um ato contrário às leis e, portanto, digno de desprezo para os que tomavam como regras as letras e se esqueciam do amor.

Para Jesus, contudo, era imprescindível ‘gritar’ o termo “alguém me tocou”, para mostrar ao povo da época e de todas as gerações futuras que não importam as vozes que nos chamam de impuros. Quando nosso desejo é tocá-lo e segui-lo, Ele está pronto para olhar em nossos olhos e dizer: Vai em paz, a tua fé te curou.

É que a cura, vai muito mais longe que as questões físicas. Ao se deparar com o Mestre, Ele faz um raio-x da nossa alma e enxerga cada molécula de dor contida nela. Ao tocar Nele, ao alimentar a fé de que Ele nos enxergará e nos acolherá, todas as nossas dores se vão.

Não é sobre viver dias de glórias e nunca mais se encontrar com aflições. É sobre saber que jamais andaremos sozinhos, pois temos um irmão mais velho sempre a segurar em nossas mãos, mesmo quando estamos impuros.

No livro ‘Alguém me tocou’, de José Carlos de Lucca, encontramos vários aspectos dessa cura espiritual que o encontro da mulher hemorrágica com Jesus nos ensina. Uma das frases que me toca logo nas primeiras páginas é quando De Lucca afirma crer que todos nós “também padecemos de alguma espécie de hemorragia”.

Eu não sei onde sangra em você nesse momento. Mas eu tenho certeza absoluta que se quiser, pode e deve tocar em Jesus. Não se lamente pelo passado, pelos equívocos, pela exclusão, pelas impurezas. Só vá, encontre Ele e estanque essa hemorragia.

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